TL;DR — 6 pontos
- A SEFAZ/SP já respondeu, em consulta formal: na Resposta à Consulta Tributária nº 33.083/2026, o fisco paulista concluiu que em 2026 os valores de IBS e CBS não integram a base do ICMS (alíquotas de teste, sem ônus efetivo) — mas que, a partir de 2027, "quando efetivamente exigíveis", eles compõem o valor da operação e entram na base do imposto estadual.
- A Constituição listou o que o IBS não integra — e o ICMS ficou fora da lista. O art. 156-A, § 1º, IX, veda que o IBS integre a própria base e a do Imposto Seletivo, da CBS e do PIS. Sobre ICMS e ISS: silêncio. O espelho da CBS (art. 195, § 17) tem o mesmo desenho.
- E quando o constituinte quis um tributo novo dentro da base do ICMS, ele escreveu: o Imposto Seletivo "integrará a base de cálculo dos tributos previstos nos arts. 155, II, 156, III, 156-A e 195, V" (art. 153, § 6º, IV). O contraste entre o vizinho expresso e o silêncio sobre IBS/CBS é o coração da disputa.
- O silêncio se repetiu — no mesmo parágrafo — em 2026: a LC 227/2026 emendou justamente o § 1º do art. 13 da Lei Kandir para incluir na base do ICMS, a partir de 1º/01/2027, o Imposto Seletivo (inciso III). Sobre IBS e CBS, o legislador que estava com a mão no dispositivo não escreveu nada — nem para dentro, nem para fora.
- Na direção inversa não há disputa: a LC 214 (art. 12, § 2º, V) exclui expressamente ICMS, ISS, PIS e Cofins da base do IBS e da CBS até 31/12/2032. O risco não é de "dupla base" simétrica — é de assimetria: o tributo novo fica limpo, e o velho pode engordar.
- Até 14/10/2026, a Justiça paulista decidiu nos dois sentidos: uma liminar a favor do contribuinte (Privalia, 09/09), uma sentença que negou o pedido (AXNS, 23/09) e uma sentença que o concedeu em parte (Sisnergy, Santos, 09/10). Todas valem só para quem entrou com a ação, todas são de primeira instância — e, mesmo para quem ganhar, recuperar o ICMS já pago esbarra no art. 166 do CTN.
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Em 9 de outubro de 2026, a 2ª Vara da Fazenda Pública de Santos concedeu em parte o mandado de segurança preventivo da Sisnergy (processo nº 1005586-56.2026.8.26.0562) e declarou inexigível a inclusão do IBS e da CBS na base do ICMS a partir de 1º de janeiro de 2027. É a primeira sentença favorável ao contribuinte de que se tem notícia. Antes dela, em 23 de setembro, a 13ª Vara da Fazenda Pública da Capital havia negado o mesmo pedido a outra empresa (AXNS, processo nº 1105098-84.2026.8.26.0053). E a liminar da Privalia, de 09/09, continua de pé.
⚠️ Nenhuma delas vale para outras empresas, todas são de primeiro grau e a sentença de Santos ainda passa por reexame obrigatório no Tribunal de Justiça. O placar completo, com o que cada decisão ensina, está na seção As decisões até agora; o que muda para o caixa está em Ganhar a ação não é recuperar o caixa.
O prazo que importa aqui: 1º de janeiro de 2027
É a data a partir da qual a SEFAZ/SP entende que IBS e CBS entram na base do ICMS. Até lá, três decisões precisam estar tomadas: o preço (a sua margem aguenta uma base maior?), o sistema (o emissor de notas calcula com ou sem IBS/CBS na base?) e a estratégia (ação preventiva, provisão ou repasse no preço).
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A pergunta que mexe com o preço
De todas as fricções da transição 2026-2032, esta é a que mexe mais diretamente com preço: o IBS e a CBS entram na base de cálculo do ICMS? A pergunta parece técnica, mas a resposta muda o custo efetivo de toda operação de indústria, atacado e distribuição enquanto o ICMS existir — ou seja, até 2032.
Nesta semana, uma análise publicada no Consultor Jurídico, assinada por Regina Flávia Campos, recolocou o tema no centro do debate a partir de um fato concreto: a resposta formal do fisco paulista. Fomos às fontes primárias — a Emenda 132, a LC 214 e a Lei Kandir emendada — e o mapa que emerge é mais interessante (e mais desconfortável) do que a manchete sugere.
O gatilho: o que a SEFAZ/SP respondeu
Na Resposta à Consulta Tributária nº 33.083/2026, a Fazenda paulista enfrentou a pergunta em dois tempos, conforme a transcrição da análise do ConJur:
Nota acrescentada em 14/09/2026: essa resposta não está sozinha. A decisão judicial analisada adiante registra que a mesma orientação já constava da Resposta à Consulta Tributária nº 32.303/2025. São duas manifestações no mesmo sentido — a posição paulista é reiterada, e não um episódio isolado.
As três respostas, conferidas na fonte
Nota acrescentada em 14/10/2026: conferimos as três respostas no site de legislação da própria SEFAZ/SP — a RC 32.303/2025 (27/11/2025), a RC 32.931 (23/01/2026) e a RC 33.083/2026 (05/02/2026). As três repetem a mesma fórmula: fora da base em 2026, dentro "quando efetivamente exigíveis". Nenhuma fixa calendário por tributo — a divisão "CBS em 2027, IBS em 2029" que circula em notícias aparece na decisão judicial de Santos, não nas respostas da SEFAZ.
"Portanto, o IBS e a CBS compõem o valor da operação para fins de ICMS e devem ser incluídos na base de cálculo do imposto estadual, quando efetivamente exigíveis."
E, sobre 2026: "especificamente no ano de 2026, não haverá acréscimo de ônus tributário para o contribuinte em relação ao IBS ou à CBS [...]. Por consequência, os valores correspondentes ao IBS e à CBS não integrarão a base de cálculo do ICMS nesse período."
RC nº 33.083/2026, SEFAZ/SP — trechos conforme transcrição em Regina Flávia Campos, ConJur, 09/09/2026. Fundamentos citados para 2026: arts. 343, 346 e 348 da LC 214 (alíquotas de teste de 0,1% e 0,9%, dispensa de recolhimento e compensação com PIS/Cofins).Traduzindo o dois-tempos: 2026 está fora — 2027 está dentro. O alívio do primeiro ano é a própria razão do susto do segundo: o fisco não disse que IBS/CBS não pertencem à base; disse que em 2026 eles ainda não pesam. Quando a CBS entrar em alíquota cheia, a posição de São Paulo já está tomada.
O mapa das fontes primárias — três níveis, um silêncio
Nível 1: a Constituição listou — e o ICMS não está na lista
O IBS "não integrará sua própria base de cálculo nem a dos tributos previstos nos arts. 153, VIII [Imposto Seletivo], e 195, I, 'b', IV e V [Cofins e CBS], e da contribuição para o Programa de Integração Social".
CF, art. 156-A, § 1º, IX, incluído pela EC 132/2023 — conferido no texto da emenda no Planalto. O ICMS (art. 155, II) e o ISS (art. 156, III) não constam. O espelho da CBS, no art. 195, § 17, tem a mesma omissão.Nível 2: quando o constituinte quis, escreveu — no artigo vizinho
O Imposto Seletivo "integrará a base de cálculo dos tributos previstos nos arts. 155, II [ICMS], 156, III [ISS], 156-A [IBS] e 195, V [CBS]".
CF, art. 153, § 6º, IV, incluído pela EC 132/2023.Este é o contraste que sustenta os dois lados da disputa. Para o contribuinte: se era preciso dizer expressamente que o IS entra na base do ICMS, a ausência de norma equivalente para IBS/CBS significa que eles não entram — inclusão de tributo em base de outro não se presume. Para o fisco: a base do ICMS é o "valor da operação" da Lei Kandir, e tudo o que compõe o valor cobrado entra por definição, como o STJ já entendeu para PIS e Cofins — a menos que uma norma exclua.
Nível 3: a LC 227 mexeu no exato parágrafo — e repetiu o silêncio
"§ 1º Integra a base de cálculo do imposto [...]: I – o montante do próprio imposto [...]; III – a partir de 1º de janeiro de 2027, o valor correspondente ao Imposto Seletivo a que se refere o inciso VIII do caput do art. 153 da Constituição Federal."
Lei Kandir (LC 87/1996), art. 13, § 1º, III — inciso incluído pela LC 227/2026. Conferido no texto consolidado do Planalto.Aqui o silêncio deixa de ser genérico e vira seletivo. Em 2026, o legislador complementar abriu o § 1º do art. 13 da Kandir — o dispositivo que define o que integra a base do ICMS — e escreveu um único acréscimo: o Imposto Seletivo, a partir de 2027. Estava com a mão na norma exata, no momento exato, com a reforma inteira na mesa. Não escreveu IBS/CBS para dentro. Também não escreveu para fora. É esse vão, tocado duas vezes e nunca fechado, que os fiscos estaduais estão preenchendo por interpretação — cada um a sua.
E a direção inversa? Essa a lei fechou
O desenho fica completo com o que não está em disputa: a base do IBS e da CBS. A LC 214 (art. 12, § 2º, V) exclui expressamente da base dos tributos novos o montante de ICMS, ISS, Cofins e PIS incidentes na operação, de 1º de janeiro de 2026 a 31 de dezembro de 2032.
Por isso o risco real não é o de "dupla base" simétrica, como às vezes se noticia. A lei garantiu que o tributo novo nasce limpo: ICMS não engorda IBS/CBS. O que está em jogo é uma assimetria: o tributo velho — que é "por dentro" e ainda vive até 2032 — pode passar a incidir sobre uma operação engordada pelos tributos novos. O IVA transparente de um lado; do outro, o ICMS fazendo o que sempre fez.
O precedente que os estados vão invocar: STJ, Tema 1.223
Em decisão divulgada em janeiro de 2025, a Primeira Seção do STJ fixou, no rito dos recursos repetitivos (Tema 1.223, REsp 2.091.202, relator ministro Paulo Sérgio Domingues), que o PIS e a Cofins integram a base de cálculo do ICMS "nas hipóteses em que a base de cálculo é o valor da operação, por configurar repasse econômico". Dois fundamentos do voto servem diretamente aos estados nesta disputa: a base do ICMS é o valor da operação, que abrange os encargos e as condições do negócio; e exclusões dessa base dependem de lei. O relator citou o art. 13, § 2º, da LC 87/1996, que exclui o IPI em certas operações, e concluiu: "Por ausência de previsão legal específica, não é possível excluir o PIS e a Cofins da base de cálculo do ICMS". É o mesmo silêncio legal descrito acima.
O contraponto está no mesmo voto. O relator separou o PIS e a Cofins, cujo repasse ao comprador é apenas econômico, do ICMS e do IPI, que têm repasse jurídico autorizado pela legislação e pela Constituição. Na nossa leitura, o IBS e a CBS, cobrados "por fora" e destacados no documento fiscal, ficam mais perto do IPI do que do PIS e da Cofins. Esse é o ponto que o contribuinte precisa enfrentar para que o Tema 1.223 não seja aplicado por analogia. A lembrança do precedente nesta discussão veio de artigo da Mantoan Advogados, que também cita este texto.
O tamanho da conta — uma ilustração
Um exemplo deliberadamente simplificado, só para dar ordem de grandeza (desconsidera o cálculo "por dentro" do ICMS e a exclusão do ICMS da base da CBS — o cálculo real da sua operação exige modelagem própria):
| Item | IBS/CBS fora da base | IBS/CBS dentro da base |
|---|---|---|
| Valor da operação | R$ 100,00 | R$ 100,00 |
| CBS destacada (11,2% em 2027, pelo cálculo do TCU) | R$ 11,20 | R$ 11,20 |
| Base do ICMS | R$ 100,00 | R$ 111,20 |
| ICMS a 18% | R$ 18,00 | R$ 20,02 |
| Diferença | — | +R$ 2,02 por R$ 100 (+11,2% de ICMS) |
Atenção à alíquota (atualizado em 28/10/2026): o TCU calculou a alíquota de referência da CBS para 2027 em 11,3% (Acórdão 2.933/2026-TCU-Plenário). Com o desconto de 0,1 ponto, a CBS cobrada em 2027 fica em 11,2%, e o Senado fixa o número até 15/12/2026. A tabela acima já usa 11,2%; antes, ela usava cerca de 9%. A regra de bolso independe do número: se a CBS entra na base, o ICMS sobe na mesma proporção da alíquota da CBS — com ICMS de 18% calculado por dentro, cerca de R$ 2,02 a mais por R$ 100 de base com a CBS de 11,2%. O efeito líquido em relação a 2026 é menor, porque PIS e Cofins saem da conta em 2027.
Onze por cento a mais de ICMS, sem nenhuma lei ter criado tributo novo — só interpretação sobre a base. Em margens de distribuição de um dígito, isso não é arredondamento: é a margem.
O teste da tese, de novo
Duas semanas atrás, analisamos a tese de que a reforma acabaria com o contencioso de interpretação. Depois veio a LC 236 reformando o processo tributário — nossa leitura: o legislador se preparando para litígio, não para paz. Esta controvérsia é o terceiro capítulo: a reforma que prometeu eliminar a cumulatividade pode estrear reproduzindo-a, por via interpretativa, no imposto que ela mesma vai extinguir. E com 27 fiscos estaduais podendo responder de 27 jeitos.
As decisões até agora — o placar e o que cada uma ensina
| Empresa e juízo | Liminar | Sentença | Situação em 14/10/2026 |
|---|---|---|---|
| Privalia · 16ª Vara da Fazenda Pública da Capital · proc. 1138866-98.2026.8.26.0053 | Concedida (09/09) | Ainda não | Fazenda do Estado admitida no processo; embargos de declaração pendentes |
| AXNS · 13ª Vara da Fazenda Pública da Capital · proc. 1105098-84.2026.8.26.0053 | Negada (06/08) | Segurança negada (23/09) | Embargos julgados em 05/10, sentença mantida |
| Sisnergy · 2ª Vara da Fazenda Pública de Santos · proc. 1005586-56.2026.8.26.0562 | Negada (10/08) | Segurança concedida em parte (09/10) | Sujeita a reexame obrigatório no TJSP |
Fonte: textos das decisões publicados no Diário de Justiça Eletrônico Nacional do CNJ, consultados em 14/10/2026 (Privalia, AXNS, Sisnergy). Segundo a Procuradoria-Geral do Estado, em declaração reproduzida pela imprensa, o Estado já soma outras decisões favoráveis à inclusão e vai recorrer da sentença de Santos — esses outros processos não foram localizados por nós.
Privalia: a liminar que organizou o argumento
A controvérsia saiu do plano teórico em 9 de setembro de 2026. A 16ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo deferiu liminar a uma varejista de comércio eletrônico, em mandado de segurança preventivo — isto é, impetrado antes de qualquer autuação, contra a ameaça representada pela própria orientação do fisco.
Três elementos da fundamentação merecem atenção de quem vai decidir o que fazer, e nenhum deles depende de a liminar sobreviver.
1. Resposta a consulta é ato que autoriza a ida ao Judiciário
O primeiro ponto é processual e vale para qualquer contribuinte: a decisão reconhece que a resposta a consulta tributária tem efeito vinculante para as autoridades fazendárias e, por isso, configura ameaça concreta e iminente — o que abre a via do mandado de segurança preventivo. O juízo apoiou-se em precedente do próprio TJSP (Apelação Cível nº 1010838-20.2023.8.26.0053, 3ª Câmara de Direito Público, rel. des. Marrey Uint, j. 10/09/2024), segundo o qual a resposta administrativa "pode consubstanciar eventual lesão ao direito do contribuinte-consulente".
Traduzindo: não é preciso esperar o auto de infração de 2027 para discutir. A orientação já publicada basta.
2. O "silêncio eloquente" — a mesma leitura deste post
No mérito, a decisão percorre exatamente o mapa que montamos acima. Parte da estrita legalidade (art. 150, I, da Constituição, e art. 97, IV e § 1º, do CTN), lembra que o art. 146, III, "a", reserva à lei complementar a fixação de base de cálculo, e chega ao ponto central:
"Ocorre que o legislador federal, ao editar a Lei Complementar nº 227/2026 para disciplinar os reflexos da Reforma Tributária sobre a Lei Kandir, acrescentou ao referido parágrafo apenas o inciso III, estipulando expressamente que, a partir de 1º de janeiro de 2027, somente o valor correspondente ao Imposto Seletivo integrará a base de cálculo do ICMS. Trata-se de hipótese evidente de silêncio eloquente do legislador complementar: quando houve a intenção de incluir uma das novas exações instituídas pela Reforma Tributária na base do imposto estadual, a norma o fez de modo específico e restrito."
Decisão de 09/09/2026, processo nº 1138866-98.2026.8.26.0053, 16ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo.
É a mesma assimetria que descrevemos: o vizinho expresso e o silêncio ao lado. A decisão conclui que ampliar a base por interpretação do termo "valor da operação", sem lei complementar, transgride os arts. 97, IV e § 1º, e 110 do CTN.
3. Um dispositivo citado na decisão — com uma correção nossa
A decisão menciona o art. 69, § 2º, II, da LC 214/2025 como exclusão expressa do ICMS das bases do IBS e da CBS. Correção de 14/10/2026: conferido no texto da lei no Planalto, o art. 69 trata da base de cálculo na importação. A regra geral, para as operações internas, é o art. 12, § 2º, V, já analisado acima — e ela vale só de 2026 a 2032. O argumento não muda: a lei diz o que sai da base dos tributos novos e em nenhum lugar diz que os tributos novos entram na base do velho. Na versão anterior deste texto, reproduzimos a referência ao art. 69 sem esse esclarecimento.
Sobre essa base, a decisão soma o desenho "por fora" e o split payment: se o valor do IBS e da CBS é segregado e repassado diretamente ao ente credor, ele seria mero trânsito financeiro na contabilidade do contribuinte, e não receita própria da operação mercantil — raciocínio que invoca, por analogia, o Tema 69 do STF.
AXNS: o mesmo pedido, negado no mérito
Com o mesmo advogado e o mesmo pedido, a AXNS perdeu duas vezes na 13ª Vara da Capital. Na liminar, em 06/08, o juízo invocou a presunção de legitimidade dos atos administrativos "sobretudo diante" das respostas às consultas 32.303/2025 e 32.931, e afirmou que as questões são "controvertidas". Em 23/09, a sentença negou a segurança. Só a parte final da sentença foi publicada no Diário; os fundamentos do mérito não estão disponíveis ao público.
Sisnergy (Santos): liminar negada, sentença concedida em parte
O caso de Santos ensina outra coisa. Em 10/08, o juiz negou a liminar por falta de urgência: 2026 é o ano de teste, sem recolhimento efetivo, e a exigência só teria efeito financeiro em 2027. Na mesma decisão, porém, já sinalizava o mérito: IBS e CBS seriam "ingressos meramente transitórios", e "o silêncio não transformaria valores de repasse obrigatório em riqueza tributável". Em 09/10, a sentença:
- declarou inexigível a inclusão do IBS e da CBS na base do ICMS da empresa a partir de 1º/01/2027, afastando para ela as respostas às consultas 32.303/2025 e 32.931;
- proibiu auto de infração, multa e recusa de certidão por esse motivo;
- admitiu a compensação de valores eventualmente pagos durante o processo só depois do trânsito em julgado (art. 170-A do CTN) e com a observância do art. 166 do CTN;
- negou a restituição em dinheiro e determinou a remessa obrigatória ao Tribunal (art. 14, § 1º, da Lei 12.016/2009).
O que nenhuma dessas decisões é
Vale a precisão, porque a repercussão tende a simplificar. Nenhuma das três decisões vale para outras empresas, e nenhuma é precedente vinculante. A liminar da Privalia é provisória. A sentença de Santos pode ser cumprida desde já — a lei permite a execução provisória da sentença que concede a segurança (art. 14, § 3º, da Lei 12.016/2009) —, mas ainda passa pelo reexame do Tribunal e pode ser suspensa a pedido do Estado (art. 15). Não localizamos, até 14/10/2026, ação no STF ou recurso repetitivo no STJ sobre o tema: a disputa está, por ora, nas varas de primeira instância — e o caminho até uma tese nacional passa pelo papel que o STJ terá no contencioso da reforma.
O que mudou, então? Duas coisas concretas. Primeira: existe agora uma peça pública, fundamentada e citável, que organiza a tese contrária à orientação paulista — e ela é útil mesmo para quem não vai a juízo, como base da documentação defensiva. Segunda: o juízo reconheceu como periculum in mora justamente a necessidade de parametrizar sistemas emissores e a precificação antes de 2027. Ou seja, a urgência não é do imposto; é da decisão de sistema, que precisa ser tomada agora.
Ganhar a ação não é recuperar o caixa — o art. 166 e a decisão do CFO
A cobertura da sentença de Santos tratou o tema como uma "nova tese do século". Para o CFO, o detalhe que mais pesa está numa linha da sentença: a compensação depende da "observância dos requisitos do artigo 166 do Código Tributário Nacional".
"A restituição de tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente será feita a quem prove haver assumido o referido encargo, ou, no caso de tê-lo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebê-la."
CTN, art. 166. O STJ fixou, no Tema 114 (REsp 1.110.550/SP), que o dispositivo se aplica quando o contribuinte de direito pede a repetição ou a compensação de tributo suportado pelo contribuinte de fato — a situação típica do ICMS.Traduzindo: o ICMS é o exemplo clássico de tributo "indireto". Se a empresa paga o ICMS sobre a base maior e embute esse custo no preço, ela repassou o encargo ao cliente — e, mesmo ganhando a ação, terá de provar que não repassou (ou obter autorização do cliente) para recuperar o valor. Na prática, o valor da ação preventiva está em não pagar a partir de 2027, não em recuperar depois — e, como o ICMS encolhe em frações até sumir em 2033, o peso da discussão também diminui ano a ano (veja como modelar o caixa nas frações de 2029 a 2032).
As três saídas, lado a lado
| Estratégia | O que protege | O risco |
|---|---|---|
| Ação preventiva antes de 2027 | Deixar de incluir IBS/CBS na base desde o primeiro mês, se houver decisão favorável | Perder no mérito, como a AXNS; e, se a decisão cair depois, recolher a diferença com juros. O valor não pago precisa ser provisionado conforme a avaliação de risco |
| Recolher com a base maior e provisionar a discussão | Regularidade fiscal sem litígio imediato | A margem paga a conta desde 2027, e recuperar depois esbarra no art. 166 |
| Repassar no preço | A margem | Competitividade; e o repasse documentado é justamente o que impede a recuperação se a tese vencer |
Nenhuma das três é automática: a escolha depende do peso do ICMS no seu custo, da margem e do apetite a risco. O que não dá é chegar a janeiro sem ter escolhido, porque o emissor de notas precisa estar parametrizado de um jeito ou de outro. Se a escolha for repassar, refaça a precificação com a simulação completa da reforma; se for litigar, o guia do contencioso IBS/CBS para o CFO organiza os passos.
O que o CFO faz agora — sem esperar consenso
- Mapeie a exposição: operações com ICMS relevante (indústria, atacado, distribuição) × margem. A pergunta é "quanto custa se a base engordar em 2027?" — e ela tem resposta numérica hoje. Para situar 2027 na transição inteira, o Calendário do CFO Regulado 2026-2033 organiza os marcos ano a ano.
- Precifique os contratos que atravessam 2027 com a cláusula certa: reajuste por variação de carga tributária que capture mudança de base, não só de alíquota. A maioria das cláusulas padrão fala em "criação ou majoração de tributos" — interpretação de base pode escapar da letra. O mesmo vale para o crédito: na apuração assistida da CBS, ele passa a depender da extinção do débito do fornecedor (art. 47 da LC 214), algo que cláusula antiga também não prevê.
- Verifique a posição do SEU estado: a RC 33.083 vincula São Paulo. Outros estados podem seguir, divergir ou calar — e o silêncio é o pior cenário para planejar. Consulta formal própria é instrumento, não custo. E, como mostram as três decisões paulistas, a resposta do Judiciário também varia de vara para vara.
- Documente desde já a tese defensiva: o mapa deste post — 156-A, § 1º, IX + 153, § 6º, IV + art. 13, § 1º, III da Kandir — é a espinha do argumento contra a inclusão. Se a cobrança vier, a provisão (CPC 25) e o contencioso começam do papel que você montou agora.
- Acompanhe o Confaz e o convênio que não veio: harmonização nacional exigiria norma — convênio ou lei complementar. Enquanto não vier, é 27 × 1. A lista completa de adequações para 2027 está no checklist gratuito da reforma.
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Perguntas frequentes
Em 2026 o IBS e a CBS entram na base do ICMS?
Segundo a própria SEFAZ/SP (RC 33.083/2026), não: em 2026 as alíquotas são de teste (0,1% e 0,9%), há dispensa de recolhimento condicionada às obrigações acessórias e compensação com PIS/Cofins, de modo que não há ônus efetivo — e sem ônus, nada a incluir na base. A ressalva importante: essa resposta vincula São Paulo; outros estados podem interpretar diferente.
E a partir de 2027?
A posição da SEFAZ/SP é que sim: quando efetivamente exigíveis, IBS e CBS compõem o valor da operação e entram na base do ICMS. É essa leitura que está em disputa — a Constituição não disse que entram (nem que saem), e a LC 227, ao emendar o art. 13 da Lei Kandir, incluiu expressamente apenas o Imposto Seletivo a partir de 2027.
O Imposto Seletivo entra na base do ICMS?
Entra, e por norma expressa nos dois níveis: o art. 153, § 6º, IV, da Constituição (incluído pela EC 132) e o art. 13, § 1º, III, da Lei Kandir (incluído pela LC 227), este a partir de 1º/01/2027. É justamente a existência dessas normas expressas para o IS que fortalece o argumento de que, para IBS/CBS, a inclusão não se presume.
O ICMS entra na base do IBS e da CBS?
Não — essa direção está resolvida por lei. O art. 12, § 2º, V, da LC 214/2025 exclui expressamente da base do IBS e da CBS o montante de ICMS, ISS, Cofins e PIS incidentes na operação, de 1º de janeiro de 2026 a 31 de dezembro de 2032.
E o ISS — a mesma discussão vale para serviços?
A estrutura do problema é a mesma: o art. 156-A, § 1º, IX, também não menciona o ISS entre as bases que o IBS não integra, e a legislação do ISS (LC 116/2003) define a base como o preço do serviço. A diferença prática é que são mais de 5.500 municípios em vez de 27 estados — e a pulverização interpretativa tende a ser ainda maior.
Isso não repete a discussão do ICMS na base do PIS/Cofins (Tema 69)?
Rima, mas não repete. No Tema 69, o STF excluiu o ICMS da base do PIS/Cofins com o argumento de que tributo que apenas transita pelo caixa não é receita do contribuinte. Aqui a pergunta é o espelho: se um tributo destacado "por fora", transparente e não cumulativo — desenhado para não integrar bases — pode ser tratado como parte do "valor da operação" de outro tributo. Os precedentes sobre PIS/Cofins na base do ICMS, o mais recente o Tema 1.223 do STJ (2025), foram construídos para tributos "por dentro"; aplicá-los ao IVA novo é exatamente o salto interpretativo em disputa.
Já existe decisão judicial sobre IBS e CBS na base do ICMS?
Sim, em primeira instância e só em São Paulo, até 14/10/2026: uma liminar a favor do contribuinte (Privalia, 16ª Vara da Fazenda Pública da Capital, 09/09/2026), uma sentença que negou o pedido (AXNS, 13ª Vara da Capital, 23/09/2026) e uma sentença que o concedeu em parte, a partir de 1º/01/2027 (Sisnergy, 2ª Vara da Fazenda Pública de Santos, 09/10/2026). Todas valem só para as empresas que entraram com a ação.
Se eu ganhar a ação, recupero o ICMS que paguei a mais?
Não necessariamente. A sentença de Santos condicionou a compensação ao trânsito em julgado e ao art. 166 do CTN, que exige provar que a empresa suportou o ICMS, sem repassá-lo ao cliente, ou ter autorização de quem o suportou (Tema 114 do STJ). Como o ICMS costuma estar embutido no preço, a recuperação tende a ser difícil; o principal efeito da ação preventiva é deixar de pagar a partir de 2027.
Atualização de 14/09/2026: decisão de 09/09/2026 no processo nº 1138866-98.2026.8.26.0053, 16ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo (juiz Marcio Ferraz Nunes), publicada no DJE em 14/09/2026 — teor integral consultado no andamento processual do e-SAJ/TJSP. Precedente citado na decisão: TJSP, Apelação Cível nº 1010838-20.2023.8.26.0053, 3ª Câmara de Direito Público, rel. des. Marrey Uint, j. 10/09/2024. Dispositivos acrescentados nesta revisão: art. 69, § 2º, II, da LC 214/2025; arts. 97, IV e § 1º, e 110 do CTN; art. 151, IV, do CTN; art. 7º, III, da Lei nº 12.016/2009. Menção à Resposta à Consulta Tributária nº 32.303/2025 da SEFAZ/SP conforme referida na decisão.
Atualização de 14/10/2026: decisões publicadas no Diário de Justiça Eletrônico Nacional (CNJ), consultadas em 14/10/2026: Sisnergy, proc. nº 1005586-56.2026.8.26.0562, 2ª Vara da Fazenda Pública de Santos (decisão de 10/08 e sentença disponibilizada em 13/10/2026); AXNS, proc. nº 1105098-84.2026.8.26.0053, 13ª Vara da Fazenda Pública da Capital (decisão de 06/08, sentença de 23/09 e embargos de 05/10/2026); Privalia, proc. nº 1138866-98.2026.8.26.0053 (decisões de 11/09 e 29/09/2026). Respostas à consulta da SEFAZ/SP nº 32.303/2025, 32.931 e 33.083/2026, no site de legislação da Secretaria. Lei 12.016/2009, arts. 14, §§ 1º e 3º, e 15; CTN, arts. 166 e 170-A; STJ, Tema 114 (REsp 1.110.550/SP); LC 214/2025, art. 69, § 2º, II (base na importação), conferido no Planalto. Declaração da Procuradoria-Geral do Estado conforme reprodução da matéria do Valor Econômico pela APET.
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