Sua empresa de cannabis tem todas as licenças, opera dentro da lei e fatura milhões — mas não consegue abrir uma conta bancária. Esse cenário absurdo é a realidade de dezenas de empresas no Brasil em 2026, mesmo após a ANVISA aprovar regulamentações históricas para cultivo e produção.
O problema não é legal. É operacional. Bancos brasileiros, pressionados por normas de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) e com sistemas de compliance que classificam "cannabis" como alto risco automático, preferem recusar o cliente a investir em análise. O resultado: empresas legítimas são empurradas para a informalidade — exatamente o oposto do que a regulamentação deveria promover.
Este artigo explica por que o banking é o maior gargalo operacional do setor, o que os bancos realmente avaliam e, mais importante, estratégias práticas para resolver o problema.
Por que bancos recusam empresas de cannabis
Para entender a recusa, é preciso entender como funciona o compliance bancário no Brasil. A Circular 3.978/2020 do Banco Central exige que toda instituição financeira implemente política de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Isso inclui processos de KYC (Know Your Client), classificação de risco de clientes e monitoramento contínuo de transações.
Quando um sistema de compliance encontra os termos "cannabis", "cânhamo" ou CNAEs relacionados à cadeia produtiva da planta, o algoritmo automaticamente eleva o risco do cliente. A partir daí, o banco tem duas opções: investir tempo e recursos analisando a operação (que pode ser perfeitamente legal) ou simplesmente rejeitar a abertura de conta alegando "falta de interesse comercial".
A segunda opção é mais barata, mais rápida e protege o banco de qualquer risco regulatório. Como resultado, empresas legítimas são descartadas preventivamente — não por serem ilegais, mas porque o banco não quer arcar com o custo de compliance necessário para atendê-las.
Os cinco motivos mais comuns de recusa
1. Classificação automática de alto risco. Sistemas de KYC usam bancos de dados e filtros de palavras-chave. "Cannabis" dispara alertas automáticos, independentemente da natureza legal da operação.
2. Estigma associado ao tráfico de drogas. Apesar da evolução regulatória, muitos departamentos de compliance ainda tratam cannabis como sinônimo de atividade ilícita. O GAFI (Grupo de Ação Financeira) já reconheceu que esse tipo de exclusão preventiva pode empurrar atividades legais para a informalidade, dificultando ainda mais o rastreio de operações reais de lavagem.
3. Ausência de regulamentação bancária específica. Diferentemente de outros países que criaram diretrizes claras para bancarização de empresas de cannabis (como os EUA com o SAFE Banking Act em discussão), o Brasil não tem orientação do Banco Central sobre como atender esse setor.
4. Receio de sanções internacionais. Bancos com operações internacionais temem que manter clientes do setor canábico afete relações com correspondentes bancários estrangeiros, especialmente nos EUA, onde a cannabis ainda é federalmente ilícita.
5. Custo de monitoramento desproporcional. O monitoramento contínuo exigido para clientes de alto risco — relatórios ao COAF, análise de transações atípicas, revisão periódica de KYC — é caro. Para muitos bancos, o faturamento gerado pela conta não justifica o custo de compliance.
O impacto real: como a exclusão bancária afeta o negócio
Quando uma empresa de cannabis não consegue abrir conta em banco, os efeitos vão muito além de inconveniência. A exclusão bancária compromete toda a operação.
Impossibilidade de receber pagamentos formais. Sem conta PJ, a empresa não emite boletos, não recebe PIX corporativo e não processa cartões. Clientes B2B que precisam de nota fiscal e pagamento por transferência simplesmente não conseguem comprar.
Exclusão de crédito. Sem relacionamento bancário, não há acesso a capital de giro, financiamento de equipamentos ou linhas de crédito do BNDES. Para um setor que exige investimento inicial de R$500K+ apenas para registro de produtos na ANVISA, isso é paralisante.
Operação na informalidade. Empresas que recorrem a contas pessoais de sócios ou contas de terceiros para movimentar recursos estão, ironicamente, praticando exatamente o tipo de operação que desperta suspeita de lavagem — criando um ciclo perverso de exclusão.
Desconfiança de investidores. Investidores que avaliam aportar capital em empresas de cannabis encontram um red flag imediato quando a empresa não tem conta bancária PJ regular. Isso afeta diretamente a capacidade de captação — em um setor que depende de investimento para crescer.
Incapacidade de demonstrar compliance. A governança financeira — com DRE auditável, fluxo de caixa documentado e separação patrimonial — é impossível sem infraestrutura bancária formal. Sem isso, a empresa não consegue provar que opera dentro da lei, reforçando o preconceito que causou a recusa original.
Estratégias práticas para resolver o banking
1. Construa o compliance antes de ir ao banco
A maioria das empresas de cannabis tenta abrir conta e depois pensa em compliance. Inverta a ordem. Antes de bater na porta de qualquer banco, prepare um pacote de documentação que demonstre governança robusta.
O pacote deve incluir: contrato social com objeto social bem definido (use termos como "produtos derivados de Cannabis sativa para fins medicinais conforme regulamentação ANVISA"), todas as licenças e autorizações vigentes, política interna de compliance (mesmo simplificada), DRE gerencial dos últimos meses, fluxo de caixa projetado e identificação completa de todos os sócios e administradores.
A lógica é simples: facilite o trabalho do departamento de compliance do banco. Quanto menos trabalho de análise o banco precisar fazer, menor a probabilidade de recusa automática.
2. Escolha o CNAE com estratégia
O CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) é um dos primeiros filtros dos sistemas de KYC bancário. Embora sua empresa deva registrar CNAEs que reflitam sua atividade real, a escolha do CNAE primário e dos secundários pode influenciar como o sistema classifica o risco.
Converse com seu contador sobre quais CNAEs descrevem melhor sua atividade dentro da cadeia produtiva — fabricação farmacêutica, pesquisa e desenvolvimento, distribuição de produtos de saúde, consultoria em agronegócio — sem omitir a natureza do negócio, mas enquadrando-a no contexto regulatório correto.
3. Priorize bancos e fintechs com experiência em setores regulados
Não perca tempo com grandes bancos de varejo em um primeiro momento. Foque em instituições que já atendem setores regulados ou de alto risco — farmacêutico, agronegócio, importação/exportação, fintechs especializadas.
Bancos de nicho e fintechs com processos de compliance mais sofisticados (e menor aversão a risco) tendem a avaliar caso a caso em vez de rejeitar por palavra-chave. Cooperativas de crédito do agronegócio também são alternativas a explorar, especialmente para empresas de cânhamo industrial.
4. Apresente-se ao gerente de compliance, não ao gerente de conta
A recusa geralmente acontece no nível operacional — o gerente de conta não tem autoridade nem incentivo para aprovar um cliente de alto risco. A conversa precisa acontecer com o departamento de compliance ou com a diretoria de risco da instituição.
Solicite uma reunião formal, apresente seu pacote de compliance e explique o marco regulatório: EC 132/2023, resoluções ANVISA de janeiro 2026 para cultivo, RDC 1015/2026 para produtos medicinais. Mostre que sua empresa opera em um mercado regulado, não em uma zona cinzenta.
5. Invista em governança financeira desde o dia zero
A melhor resposta de longo prazo ao problema bancário é tornar sua empresa irrecusável. Isso significa: contabilidade auditável, DRE gerencial mensal, fluxo de caixa documentado, separação patrimonial entre sócios e empresa, controles internos claros e compliance tributário impecável.
É aqui que um CFO as a Service especializado em mercados regulados faz diferença real. Não é apenas sobre ter números organizados — é sobre construir uma narrativa financeira que convença bancos, investidores e reguladores de que sua empresa é séria, transparente e bem gerida.
O cenário internacional: lições dos EUA, Canadá e Colômbia
O Brasil não está sozinho nesse desafio. Nos Estados Unidos, onde a cannabis é legal em mais de 30 estados mas permanece ilícita federalmente, empresas movimentam bilhões em caixa — literalmente. O SAFE Banking Act, que facilitaria serviços financeiros para cannabis, foi aprovado sete vezes pela Câmara dos Representantes e continua travado no Senado.
No Canadá, a legalização federal em 2018 resolveu o problema bancário quase imediatamente — quando a atividade é legal em todas as esferas, bancos não têm justificativa para recusar.
A Colômbia, com regulamentação mais similar à brasileira, enfrenta desafios parecidos. O acesso ao financiamento passa necessariamente pelo compliance — empresas que implementam sistemas robustos de governança conseguem acessar crédito agrícola e bancarização, enquanto as que operam com estrutura frágil são excluídas.
A lição é clara: onde o Estado regulamenta completamente (Canadá), o banking funciona. Onde a regulamentação é parcial ou ambígua (Brasil, EUA, Colômbia), o compliance da empresa é o que faz a diferença entre ter ou não ter conta no banco.
O que esperar: tendências para 2026–2027
Três fatores podem melhorar o cenário bancário para cannabis no Brasil nos próximos 12–18 meses.
Regulamentação ANVISA em vigor. Com as regras de cultivo entrando em vigor em agosto de 2026, o mercado ganha previsibilidade regulatória. Bancos tendem a reclassificar o risco do setor conforme o marco legal se solidifica.
Pressão do agronegócio. O cânhamo industrial, com rentabilidade estimada pela Embrapa entre R$9.000 e R$23.000 por hectare, está atraindo investidores do agronegócio tradicional. Grandes produtores rurais já têm relacionamento bancário sólido — e quando pedirem crédito para plantar cânhamo, os bancos terão que se adaptar.
Fintechs especializadas. Nos EUA, empresas como Safe Harbor Financial e Partner Colorado já se especializaram em banking para cannabis. No Brasil, é questão de tempo até fintechs identificarem essa oportunidade de nicho — um mercado de R$1 bilhão+ com demanda reprimida por serviços financeiros.
Enquanto isso, a preparação é a melhor estratégia. Empresas que chegarem a 2027 com governança financeira exemplar estarão na frente da fila quando o mercado bancário abrir.
Planeje a governança financeira da sua empresa de cannabis
Baixe o Relatório de Oportunidades de Negócio em Cannabis Brasil 2026 — com análise completa do mercado, marcos regulatórios, modelos de negócio e framework de governança para empresas do setor.
📄 Baixar Relatório GratuitoBanking travado? Sua governança financeira é a chave.
Agende um diagnóstico gratuito de 30 minutos. Vamos analisar sua estrutura financeira e montar um plano para bancarização — com compliance que convence.
📱 Falar pelo WhatsAppLeia também
Como Montar uma Empresa de Cannabis no Brasil: Guia 2026
Investir em Cannabis no Brasil: Guia do Investidor Agro
Guia Completo: CFO as a Service no Brasil 2026
CFO as a Service vs. BPO Financeiro vs. Consultoria
Reforma Tributária 2027: Impactos para Sua Empresa
Última atualização: Fevereiro 2026. Este conteúdo é informativo e não constitui aconselhamento jurídico ou financeiro. A regulamentação do setor de cannabis está em evolução constante — consulte profissionais especializados para decisões específicas. Fontes: Banco Central do Brasil (Circular 3.978/2020), GAFI/FATF, ANVISA, Kaya Mind, Sechat, ArentFox Schiff.
0 comentários