Como Montar uma Empresa de Cannabis no Brasil: Guia Passo a Passo 2026

Como abrir empresa de cannabis no Brasil — vista aérea de estufas de cultivo com painéis solares cercadas por vegetação, o modelo de operação autorizada pela ANVISA sob as RDCs 1.013 e 1.015

O marco regulatório da cannabis no Brasil está completo e em vigor. As resoluções que a ANVISA aprovou em janeiro de 2026 e publicou em 3 de fevereiro entraram em vigor em três datas — a última delas, 4 de agosto de 2026, abriu a via administrativa para o cultivo de Cannabis sativa para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa. Pelo anuário da Kaya Mind, o mercado de cannabis medicinal faturou cerca de R$ 970,9 milhões em 2025, 14% acima de 2024 — estimativa de mercado, não dado oficial.

Gabriela Rocha · Algoritimado · Santos–SP · atualizado em 29/09/2026 · Leitura: ~18 min

🔄 Atualizado em 29/09/2026. Revisão geral do guia: datas de vigência de cada RDC, a diferença entre Autorização Sanitária e registro (que decide o imposto), a situação das associações e uma seção nova sobre a tributação por porta de entrada, com os dados da 4ª edição do Panorama Cannabis.

Para investidores do agronegócio e empreendedores, a pergunta não é mais "se" o mercado vai abrir, mas "como montar a empresa certa, com as licenças certas, no tempo certo". Este guia responde isso de forma prática: os modelos de negócio possíveis, as autorizações de cada um, os custos, o imposto que cada porta de entrada paga, os desafios reais — inclusive bancários — e como estruturar a governança financeira desde o início.

Em 5 pontos
  • O marco tem cinco RDCs com três datas de vigência: a 1.014 (sandbox) vale desde 03/02/2026, a 1.015 (fabricação e importação de produtos) desde 04/05/2026, e as 1.011, 1.012 e 1.013 (listas e cultivo) desde 04/08/2026.
  • Produto de cannabis no Brasil tem Autorização Sanitária, não registro de medicamento. São 55 autorizações vigentes, de 25 empresas (portal da ANVISA, base 19/08/2026).
  • A diferença decide o imposto: a LC 214 dá alíquota zero e 60% de redução a medicamento registrado — e, de 530.777 unidades de cannabis vendidas em farmácia de janeiro a agosto de 2026, só 18 tinham registro.
  • Cultivar exige Autorização Especial da RDC 1.013, exclusiva para pessoa jurídica, com THC até 0,3% e fim medicinal — e o que se vende é a planta, não o insumo farmacêutico.
  • Cânhamo para fibra, alimento ou construção continua sem regulamentação. O marco de 2026 cobre apenas o uso medicinal, farmacêutico e de pesquisa.
55autorizações sanitárias vigentes, de 25 empresas · Panorama 1ª ed.
18de 530.777 unidades vendidas em farmácia tinham registro · 4ª ed.
772 milpedidos de importação por paciente desde 2014 · 3ª ed.
656produtos na lista de importação da RDC 660, de 574 empresas · 2ª ed.

Qual é o seu caso?

📘 Material gratuito: o Guia da Autorização ANVISA percorre as normas do marco, as vias de entrada e o checklist financeiro de cada uma — em PDF.


O panorama regulatório da cannabis no Brasil em 2026

A regulamentação da cannabis no Brasil mudou mais em 2026 do que nos cinco anos anteriores. Para entender o cenário atual, estes são os marcos que importam para quem vai abrir uma empresa:

Linha do tempo regulatória

Data Marco Impacto
Dez 2019 RDC 327/2019 Cria a Autorização Sanitária para fabricar e importar produtos de cannabis — sem registro de medicamento. Revogada em 2026 pela RDC 1.015.
Mar 2022 RDC 660/2022 Regula a importação por pessoa física, para uso próprio, com prescrição — a via da maior parte do produto que chega ao paciente.
Nov 2024 STJ, REsp 2.024.250/PR (IAC 16) Fixa que o cânhamo com THC abaixo de 0,3% não é proscrito, mas que não há previsão legal para usos industriais não medicinais; manda regulamentar o uso medicinal e farmacêutico (prazo prorrogado até 31/03/2026).
03/02/2026 ANVISA publica as RDCs 1.011 a 1.015 O pacote do marco: listas da Portaria 344 (1.011), pesquisa (1.012), cultivo (1.013), sandbox (1.014) e produtos (1.015). A 1.014 entra em vigor na publicação.
04/05/2026 RDC 1.015 em vigor Substitui a RDC 327: novas regras de fabricação, importação e prescrição de produtos com Autorização Sanitária.
13/05/2026 RDC 1.023 Altera as RDCs 1.013 e 1.015 e abre a exportação de produtos e insumos de cannabis produzidos no Brasil.
04/08/2026 RDCs 1.011, 1.012 e 1.013 em vigor Empresas podem pedir a Autorização Especial para cultivo (RDC 1.013); instituições de pesquisa e ensino habilitadas, a da RDC 1.012.
2026 PL 5.511/2023 na Agenda Legislativa da CNI A indústria classifica o projeto do cânhamo como "convergente com ressalva" — segundo a ABICANN, a primeira vez em mais de 30 anos que o tema entra na agenda.

O que as novas regras permitem (e o que ainda não)

As resoluções em vigor desde 04/08/2026 abrem duas portas de cultivo distintas: a RDC 1.013 autoriza o cultivo comercial de variedades com até 0,3% de THC para fins medicinais e farmacêuticos (Autorização Especial exclusiva para pessoa jurídica, com inspeção sanitária prévia), e a RDC 1.012 autoriza o cultivo para pesquisa científica — esta sem o teto de 0,3%, mas com comercialização vedada (art. 7º). A Embrapa já recebeu autorização excepcional da ANVISA, em novembro de 2025, para pesquisar o cultivo.

O que ainda não está regulamentado: uso adulto (recreativo), venda sem prescrição, cultivo comercial com THC acima de 0,3% e cânhamo para uso industrial — fibra, alimento, cosmético, construção. O marco de 2026 cobre o uso medicinal, farmacêutico e de pesquisa.


Modelos de negócio para empresas de cannabis no Brasil

Com o marco completo, existem cinco caminhos para entrar no mercado — quatro regulados e um que ainda depende de regra nova:

1. Cultivo e fornecimento de matéria-prima

O modelo mais direto para investidores do agro. Exige a Autorização Especial da RDC 1.013 para cultivar Cannabis sativa com até 0,3% de THC, para fins medicinais. Um detalhe que muda o plano de negócio: pelos arts. 5º e 8º da norma, o que a AE de cultivo permite vender é a planta — o material vegetal vai para quem também tem autorização (fabricante de insumo ou de produto), e não direto ao mercado.

2. Fabricação e importação de produtos de cannabis

Produção ou importação de óleos, extratos e outros produtos regulados pela RDC 1.015/2026, em vigor desde 04/05/2026 (sucedeu e revogou a RDC 327/2019). Exige Autorização de Funcionamento (AFE), Autorização Especial (AE), boas práticas de fabricação e uma Autorização Sanitária por produto — que não é registro de medicamento. Essa diferença decide o imposto (veja a seção de tributação) e é o tema das quatro portas da RDC 1.015. O registro de medicamento é outro caminho, com estudos clínicos — e hoje há um único produto de cannabis registrado no país.

3. Importação e distribuição

Há duas importações diferentes. A empresarial, de produto acabado com Autorização Sanitária, segue a RDC 1.015 e chega ao paciente pela farmácia. A da pessoa física, para uso próprio, segue a RDC 660/2022 — e foi por ela que entrou a maior parte do produto até hoje: 772.614 pedidos entre 2014 e junho de 2026, de uma lista oficial com 656 produtos, de 574 empresas. Quem vende ao paciente que importa é, em regra, empresa estrangeira; o negócio brasileiro nessa via é de representação, logística e atendimento. Classificação fiscal e valor aduaneiro estão em vácuo de NCM, Lista A3 e valor aduaneiro.

4. Associações de pacientes

Desde 03/02/2026 existe regra própria: a RDC 1.014 criou um ambiente regulatório experimental (sandbox) para pessoa jurídica constituída há pelo menos dois anos, que atenda exclusivamente associados cadastrados, sem atividade comercial — o perfil das associações de pacientes. Mas, até 29/09/2026, o edital de chamamento público que abre a seleção não foi publicado — a porta existe no papel e segue fechada na prática (análise no Migalhas que cita nosso levantamento: “Sandbox da Cannabis regula, mas não libera”). Enquanto isso, os requisitos — tempo de constituição, governança e contabilidade regulares — já valem, e quem quiser entrar precisa usar a espera para arrumar a estrutura. E há uma data fiscal que já chegou: o documento fiscal eletrônico é obrigatório inclusive em operação imune (LC 214, art. 60) — desde 1º/10/2026 para serviços da lista da LC 116 e a partir de 1º/12/2026 para quem entrega produto sem ser contribuinte do ICMS, o que alcança a associação — detalhes em mensalidade de associação e IBS/CBS e no preparo financeiro para o sandbox.

5. Cânhamo industrial (fibra, alimento, construção)

O cânhamo tem aplicações que vão além do medicinal: fibras para têxteis e construção civil, sementes para alimentos, biomassa e compostos industriais. Mas este uso ainda não está regulamentado no Brasil — o marco de 2026 é medicinal e farmacêutico, e o cultivo da RDC 1.013 exige finalidade medicinal. Para o agro, é a oportunidade de maior escala no longo prazo e, hoje, uma aposta regulatória, não um modelo operável.


Passo a passo: como abrir uma empresa de cannabis no Brasil

Passo 1: Definir o modelo de negócio e a estrutura societária

Antes de qualquer licença, defina qual dos modelos acima você vai seguir — e se é um só. Para empresas de cannabis, a recomendação é constituir uma pessoa jurídica específica, com CNAE adequado e contrato social que explicite as atividades reguladas. Consulte um advogado especializado em regulação de cannabis: a parte jurídica é de advogado; a financeira e tributária, de contador.

Passo 2: Obter as autorizações da ANVISA

Cada modelo tem o seu conjunto: cultivo exige a Autorização Especial da RDC 1.013, exclusiva para pessoa jurídica, com inspeção sanitária prévia e rastreabilidade; fabricação e importação exigem AFE, AE e a Autorização Sanitária de cada produto pela RDC 1.015; pesquisa segue a RDC 1.012 — e aqui atenção ao rol de quem pode pedir: empresa privada de P&D não se enquadra sozinha; o caminho usual é o convênio com ICT pública ou instituição de ensino reconhecida pelo MEC. O processo inclui documentação extensa sobre instalações, segurança, rastreabilidade e controle de qualidade, e a análise pode levar meses (veja AS × AFE: o que cada uma autoriza).

Passo 3: Estruturar instalações conforme BPF

As Boas Práticas de Fabricação são exigência inegociável. Isso inclui: controle de acesso, monitoramento por câmeras, rastreabilidade de cada planta (seed-to-sale), laboratório de controle de qualidade e documentação detalhada de cada etapa. Para cultivo, adicione: estufas com controle ambiental, irrigação rastreável e protocolos de descarte seguro — e o licenciamento ambiental do cultivo.

Passo 4: Garantir compliance financeiro desde o dia zero

Este é o passo que a maioria dos guias ignora — e que separa a empresa que atrai investidor da que não passa da fase inicial. Empresas de cannabis precisam de contabilidade segregada e auditável, com trilha de auditoria; relatórios que investidor e regulador entendam (DRE gerencial, fluxo de caixa projetado, margens); tributação desenhada por porta de entrada, antes da reforma tributária de 2027; e governança que reduza o risco percebido (veja compliance como vantagem competitiva).

É aqui que um CFO fracionado especializado em mercados regulados faz diferença. Um diretor financeiro CLT de empresa de pequeno ou médio porte tem salário de referência de R$ 33,8 mil a R$ 48 mil por mês (Robert Half, Guia Salarial 2026) — e custa à empresa de 1,7 a 1,9 vez isso com encargos. Antes de faturar, é custo fixo difícil de justificar; o fracionado entrega a mesma estrutura por uma fração.

Passo 5: Resolver a questão bancária

Um dos maiores desafios práticos é abrir e manter conta bancária: muitos bancos recusam clientes do setor por política interna de compliance, mesmo com atividade legal. O que funciona: bancos digitais com políticas mais flexíveis, fintechs e documentação robusta que demonstre legalidade — o tema tem análise própria em banking para cannabis.

Passo 6: Buscar investimento (se necessário)

O mercado atrai investidores anjo, family offices do agronegócio, fundos temáticos e investidores estrangeiros. Para captar, você precisa de projeções financeiras sólidas, due diligence completa, compliance regulatório demonstrável e um time crível — o framework de due diligence em 30 pontos mostra o que o investidor vai perguntar.


Custos para abrir uma empresa de cannabis no Brasil

Transparência sobre custos é fundamental para planejamento. As faixas abaixo são ordens de grandeza de mercado, não valores oficiais — variam muito com escala, tecnologia e localização, e servem para dimensionar o capital antes do orçamento detalhado:

Item Faixa estimada Observações
Taxas da ANVISA Autorização Sanitária do produto: sem TFVS, por ora AFE, AE e certificação de BPF pagam taxa (ANVISA, P&R da RDC 1.015, 20/07/2026)
Infraestrutura de cultivo (estufa) R$ 300 mil – R$ 2 milhões Depende de escala e tecnologia
Consultoria jurídica especializada R$ 50 mil – R$ 200 mil/ano Regulatório, societário e compliance
Segurança (câmeras, controle de acesso) R$ 100 mil – R$ 500 mil Exigência sanitária
Sistema de rastreabilidade (seed-to-sale) R$ 50 mil – R$ 200 mil Software e implementação
CFO fracionado (governança financeira) R$ 7 mil – R$ 22 mil/mês Faixas praticadas no mercado
Capital de giro (12 meses) R$ 200 mil – R$ 1 milhão Até o primeiro faturamento

Investimento total estimado para uma operação de cultivo + fabricação: R$ 1,5 milhão a R$ 5 milhões ou mais. Modelos mais leves (distribuição, associação) exigem bem menos. O orçamento passo a passo para abrir sob a RDC 1.015 está em quanto custa abrir uma empresa de cannabis medicinal.

Qual imposto sua empresa de cannabis vai pagar: depende da porta de entrada

A LC 214/2025, que regulamenta a reforma tributária, não menciona cannabis nenhuma vez — e ainda assim decide a carga de cada modelo de negócio, porque dá tratamento favorecido a medicamento registrado. O mesmo canabidiol paga cargas diferentes conforme a porta sanitária por onde entra:

Porta de entrada Tratamento na LC 214 Quanto do mercado passa por ela
Medicamento registrado 60% de redução de IBS e CBS (art. 133); alíquota zero se destinado, conforme o registro, a uma das sete finalidades do art. 146 Um único produto registrado; 18 de 530.777 unidades vendidas em farmácia (jan–ago/2026)
Produto com Autorização Sanitária (RDC 1.015) Alíquota padrão — Autorização Sanitária não é registro 99,99% do que as farmácias vendem
Farmácia de manipulação 60% de redução (art. 133, 2ª hipótese), sem registro e — pela nossa leitura — fora do filtro CMED do § 2º 0,186% da massa; a manipulação de CBD depende de regulamentação que a ANVISA não editou (art. 72 da RDC 1.015) e hoje ocorre, em regra, por decisão judicial
Importação por paciente (RDC 660) Hoje sem imposto; passa a pagar com a transição — cerca de 27% até 2033, pela simulação do Panorama 772.614 pedidos entre 2014 e junho de 2026

Os números vêm do Panorama Cannabis 4ª edição (censo do SNGPC) e da 3ª edição (importações). A análise completa das três cargas está em o mesmo canabidiol, três cargas tributárias, e o Imposto Seletivo em cannabis fora do Imposto Seletivo. A consequência prática: a categoria regulatória do produto se escolhe no dossiê sanitário, antes do pedido — e ela define a margem por anos.


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Desafios reais que você vai enfrentar

A oportunidade é real, mas os desafios também. Os mais citados por empreendedores e investidores do setor:

Estigma e preconceito

Numa pesquisa da Kaya Mind com 1.022 profissionais do setor, feita em 2022, o preconceito apareceu como a principal dificuldade de trabalhar com cannabis, citado por 34,3%. Isso afeta da abertura de conta bancária à contratação. A resposta passa por comunicação profissional, governança transparente e participação em entidades do setor.

Falta de informação confiável

Na mesma pesquisa, a falta de informação veio em segundo lugar, com 27,2%. O marco é novo e muda com frequência — só em 2026 a ANVISA publicou as cinco RDCs do marco e já as alterou em maio. Por isso, assessoria especializada — jurídica, regulatória e financeira — não é opcional.

Cultivares adaptadas ao Brasil

O teto de 0,3% de THC depende da genética e do ambiente, e variedades desenvolvidas para clima temperado não têm comportamento garantido no Brasil — por isso o desenvolvimento de cultivares nacionais é prioridade. Até 1º/08/2026 não havia nenhuma cultivar de cannabis registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do MAPA — os primeiros anos de cultivo terão incerteza biológica significativa. Há ainda uma questão de conformidade em aberto envolvendo a lista de espécies do MAPA e o cadastro no SisGen, que detalhamos neste levantamento — se o cadastro se aplica ao seu projeto é questão jurídica, a confirmar com advogado.

Dependência de importação

Até que o cultivo nacional se estabeleça, o insumo dos produtos vendidos no Brasil vem de fora. Isso gera custo elevado, exposição cambial e vulnerabilidade logística — e, quando há parte relacionada no exterior, preços de transferência desde o primeiro dia (a ferramenta gratuita de preços de transferência calcula o intervalo arm's length). Quem conseguir produzir localmente terá vantagem competitiva.

Complexidade tributária

Além da complexidade normal do sistema brasileiro, empresas de cannabis enfrentam classificação fiscal incerta — o vácuo de NCM para o canabidiol — e uma carga que muda conforme a porta de entrada, com a CBS cheia a partir de 2027. A seção de tributação acima mostra por quê.


Por que o agronegócio está olhando para o cânhamo

Para o agro, o interesse no cânhamo vem de três características: ciclo curto, uso de uma mesma lavoura para fibra, semente e biomassa, e um mercado global já estabelecido em outros países. Nas contas do Instituto Escolhas (Relatório Técnico Cânhamo, 2025), a receita líquida do cânhamo para sementes vai de R$ 9,5 mil a R$ 22,4 mil por hectare, conforme o preço, e atender a demanda projetada para 2030 exigiria 64.103 hectares, com R$ 5,76 bilhões em receitas líquidas. São cenários que incluem usos ainda não regulados no Brasil — servem para dimensionar a oportunidade, não para projetar caixa hoje.

O ponto que o investidor precisa separar: hoje, no Brasil, só o cultivo com finalidade medicinal está regulado (RDC 1.013). Quem quer se posicionar para o cânhamo industrial tem dois caminhos — entrar agora pela via medicinal, com a Autorização Especial e a estrutura de rastreabilidade que ela exige, ou acompanhar a regulamentação do uso industrial, que ainda não existe. Em ambos os casos, a governança financeira montada agora é o que permite captar quando a janela abrir.


Perguntas frequentes sobre empresas de cannabis no Brasil

É legal abrir uma empresa de cannabis no Brasil em 2026?

Sim, para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa. O marco tem cinco RDCs da ANVISA com três datas de vigência: a RDC 1.014 (sandbox) desde 03/02/2026, a RDC 1.015 (fabricação e importação de produtos) desde 04/05/2026 e as RDCs 1.011, 1.012 e 1.013 (listas e cultivo) desde 04/08/2026. Continuam fora do marco o uso adulto e os usos industriais — cosmético, alimento, fibra.

Já é possível cultivar cannabis legalmente no Brasil?

Sim, desde 4 de agosto de 2026. Pessoas jurídicas podem pedir a Autorização Especial da RDC 1.013 para cultivar variedades com até 0,3% de THC, para fins medicinais e farmacêuticos, com inspeção sanitária prévia. O que a autorização permite vender é a planta, a quem também tem autorização. O cultivo para pesquisa segue a RDC 1.012, sem o teto de 0,3% e com comercialização vedada.

Quais autorizações da ANVISA são necessárias?

Depende do modelo: cultivo exige a Autorização Especial da RDC 1.013; pesquisa, a da RDC 1.012; fabricação e importação de produtos exigem AFE, AE, boas práticas e a Autorização Sanitária de cada produto pela RDC 1.015. Pela consulta oficial do portal da ANVISA de 19/08/2026, eram 55 autorizações sanitárias vigentes, de 25 empresas.

Qual imposto um produto de cannabis paga na reforma tributária?

Depende da porta sanitária, não da molécula. A LC 214 dá 60% de redução de IBS e CBS a medicamento registrado ou manipulado em farmácia e alíquota zero a medicamento registrado destinado a uma das sete finalidades do art. 146. Produto com Autorização Sanitária — 99,99% do que as farmácias vendem — não é registrado e fica na alíquota padrão.

Associação de pacientes pode operar pelo sandbox da RDC 1.014?

A RDC 1.014/2026, em vigor desde 03/02/2026, criou um ambiente regulatório experimental para pessoa jurídica constituída há pelo menos dois anos, que atenda exclusivamente associados e sem atividade comercial. Até 29/09/2026 o edital de chamamento público não havia sido publicado, então a entrada segue fechada na prática. O documento fiscal eletrônico é obrigatório inclusive em operação imune (LC 214, art. 60) — desde 1º/10/2026 para serviços da lista da LC 116 e a partir de 1º/12/2026 para quem entrega produto sem ser contribuinte do ICMS.

Quanto custa abrir uma empresa de cannabis no Brasil?

Depende do modelo. Uma operação de cultivo e fabricação pode exigir de R$ 1,5 milhão a R$ 5 milhões ou mais; modelos mais leves, como distribuição e associação, começam bem abaixo. O custo real está no compliance regulatório — taxas de AFE, AE e boas práticas, segurança, rastreabilidade — e no capital de giro para o ciclo de autorização, de pelo menos 12 meses.

Cânhamo industrial já pode ser cultivado no Brasil?

Ainda não. O STJ fixou, em 2024, que não há previsão legal para usos industriais distintos dos medicinais e farmacêuticos, e o marco de 2026 regulou apenas o cultivo com finalidade medicinal (RDC 1.013). Fibra, alimento, cosmético e construção dependem de regulamentação que ainda não existe.

Bancos aceitam empresas de cannabis no Brasil?

É um dos maiores desafios práticos: mesmo com atividade legal, políticas internas de compliance bancário ainda recusam ou encerram contas do setor. Governança financeira documentada, contabilidade regular e clareza sobre a autorização sanitária são o que muda a conversa com o banco.

Investidores estrangeiros podem participar?

Sim, seguindo as regras do Banco Central para capital estrangeiro. Se o investidor ou fornecedor estrangeiro for parte relacionada, as operações entre as empresas entram nas regras de preços de transferência da Lei 14.596/2023 desde o primeiro dia.

Como atrair investimento para uma empresa de cannabis?

Governança financeira transparente é o fator número um. O investidor quer ver projeções sólidas, compliance regulatório comprovado, equipe experiente e trilha de auditoria completa — e entender em qual porta tributária o produto está, porque isso define a margem.

Quer estruturar sua empresa de cannabis com governança financeira desde o dia zero?

A Algoritimado é CFO fracionado para mercados regulados. Modelamos o número da sua operação — capital, estrutura societária, tributação por porta de entrada e fluxo de caixa até a autorização sair — com a fonte normativa ao lado de cada linha.

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Última atualização: 29 de setembro de 2026 (publicado em 13 de fevereiro de 2026). Este conteúdo é informativo e não constitui aconselhamento jurídico ou financeiro. As regulamentações de cannabis no Brasil estão em evolução — consulte profissionais especializados para decisões específicas. Fontes: ANVISA (RDCs 327/2019, 660/2022, 1.011 a 1.015/2026 e 1.023/2026; portal de consultas; dados abertos do SNGPC), LC 214/2025, Robert Half (Guia Salarial 2026), Panorama Cannabis (Algoritimado, 1ª a 4ª edições). Mercado: Kaya Mind (anuário 2025). Cânhamo: Instituto Escolhas (2025). STJ, REsp 2.024.250/PR (IAC 16).

1 comentário

Olá, Gabriela. Tudo bem?

O tema é interessante para nós da ABICANN – Associação Brasileira das Indústrias de Cannabis – e para empresas associadas.

Agradeço se puder fazer contato, quando possível.

At.,

Thiago

Thiago Ermano •

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